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terça-feira, 28 de abril de 2009

Curta: O troco

Por Luiza Assis

"Espero que todos gostem, deem muitas risadas e se divirtam muito". Com essa curta e simples aparição, o produtor de O troco, aplaudido, desceu do palco. Confesso que esperava apenas mais um filme ‘engraçadinho’, até mesmo pela temática que apresentava: o telemarketing, que já virou piada no Brasil. Mas fui surpreendida. Com um roteiro ágil e inteligente, o filme mostra que não é preciso ter grandes investimentos pra fazer um trabalho de qualidade.

O curta traz a história de um casal que recebe a ligação de uma operadora de telemarketing e resolve ‘dar o troco’, fazendo 'o feitiço virar contra o feiticeiro'.

A fotografia é simples, são apenas dois cenários e três atores, que se encaixaram perfeitamente nos seus respectivos papéis. Com esse plano de poucos luxos, o curta foi o mais aplaudido da noite.

O filme paulista fez parte da noite que abriu ‘com chave de ouro’ o Cine PE Festival do Audiovisual, e fica a torcida para que a semana mantenha o mesmo nível dos filmes apresentados na abertura.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O escafandro e a borboleta

Por Lorena Tabosa


Incrível a capacidade de criação dos franceses...
O que é um único olho como ângulo cinematográfico senão um serpeante caminho rumo aos verdejantes vales da salvação? Principalmente quando já se está à beira de um ataque de nervos frente à mera possibilidade de o cinema francês terminar encurralado na convenção 'Amélie Poulain'.
Mas, calma! Antes que os amantes do casório verde-vermelho saquem as pedras e desentolem os chicotes, deixe-me explicar. Não é que, absolutamente, não goste de Amélie. Ao contrário, considero-a uma criatura essencialmente humana. No entanto, haveremos de convir que "rotas" diversas são necessárias, não apenas na sétima arte, mas em todas. A mesmice não é arte, é decoração.
Jean-Dominique Bauby. Confesso que prefiro Jean-Do. Que seja, então!
Jean-Do. Borboleta. Aprisionada num escafandro. Mas não nas condições usuais, nas quais o escafandro seria um eficiente protetor para seres não-aquáticos quando em contato com as profundezas marinhas.
Não. Dessa vez, o escafandro vem sob o papel de "porta-grilhões", atando a borboleta-sedenta-de-vida às suas próprias memórias, obrigando-a a repensar atitudes, decisões.
Atou-a à liberdade. A liberdade que vem colada ao fim das ilusões, do imediato, do avassalador. A liberdade que dói.
A dor de Jean-Do reside em sua própria existência. E nesse ponto, nós, humanos, somos todos "farinha do mesmo saco". Afinal, o que são nossas dores, sejam de ordem física ou psicológica, senão frutos do escafandro chamado existência?


Ficha técnica:

Título original: Le Scaphandre et le Papillon
Direção: Julian Schnabel
Elenco: Mathieu Amalri, Marie-Josée Croze, Jean-Pierre Cassel, Lenny Kravitz, Max Von Sylow
Ano de lançamento: 2007


domingo, 29 de março de 2009

O amor nos tempos do cólera

Por Aline Fontelli

O amor pode estar em qualquer lugar. Há três milhas de distância ou em letras desenhadas nas cartas de solidão que atormentam...

Na pele do denso Florentino Ariza, Javier Bardem descarrega a nostalgia de um amor impossível. Mas sem aquele tom depressivo, que deixaria qualquer personagem morrer chato. Até arrisco-me a dizer que, apesar de linda a adaptação, o filme cresce muito quando o ator entra em cena. Um caricato típico dele. Espesso, apaixonante e febril.

Ao contar
os anos que se passam lentamente pelas rugas da sua amada, Florentino envelhece mais forte do que quando era na sua juventude, onde sabia da impossibilidade do seu amor. A sensação de vida é latente em um sentimento que não desmonta a cada abandono, do contrário, só o dá forças.

Atriz consagrada e com cacife para encarar produções estrangeiras,
Fernanda Montenegro não precisa de comentários. Na pele de Tránsito Ariza, uma velha sofrida, mãe de Florentino, ao mesmo tempo em que enlouquece, luta para ver o seu único filho feliz e livre de um amor que, por mais que não aparente, o deixa sofrer.

Giovanna Mezzogiorno (Fermina Daza) é um tanto irritante, talvez pela indecisão constante de sua personagem, ou por não combinar como par romântico do rústico Javier. Detalhe que até passa despercebido no filme, diante da atuação do ator, que, na minha opinião, é um dos melhores da atualidade.


Entre centenas de amantes, onde nenhuma consegue tocar o seu coração, Florentino não se esforça para esquecer a mulher que não o quer. Então, como entender um coração que nutre um sentimento desde o primeiro olhar até a ultima loucura? Até as últimas cartas...

Baseado na obra de Gabriel García Márquez, do começo ao fim, Mikel Newell conseguiu dar ao filme o mesmo tom literário que o escritor deu à obra... aquela sensação de não querer fechar a última página do livro.


Sem idéias para explicar tamanha fragilidade, as palavras do sonoro poeta Floretino fazem do filme mais do que uma história de amor, é um enlevo... Melhor do que o drama comum, é um drama com um trágico final feliz.


Ficha técnica:

Título Original:
Love in the time of cholera

Direção:
Mike Newell

Elenco:
Javier Bardem, Fernanda Montenegro, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, Catalina Sandino Moreno

Ano de lançamento: 2007
Duração:
138 minutos


- Veja trailer

sábado, 28 de março de 2009

Os 7 suspeitos

Por Otávio Portugal

Toda vez que jogava detetive, levava horas e horas para descobrir o suspeito. Nunca desconfiava da bela Senhorita Rosa e quase sempre ela era a assassina. O filme The Clue ( Os 7 suspeitos) é baseado nesse jogo de tabuleiro e você tem a solução para os crimes, com três possíveis finais, em apenas 1h30. Imaginem se fizessem um longa-metragem baseado em War ou banco imobiliário, seria melhor ainda. A história segue uma linha parecida com a de Hitchcock, mas envereda pelo caminho da comédia. Os personagens, as armas, as passagens secretas e os aposentos do jogo, compõem a divertida trama do filme.


Direção: Jonathan Lynn
Elenco: Eileen Brennan, Tim Curry, Madeline Kahn, Christopher Lloyd, Michael McKean, Martin Mull e Lesley Ann Warren
Ano:1985
Gênero: Comédia
Duração: 96 min

segunda-feira, 23 de março de 2009

Tudo acontece em Elizabethtown

Por Aline Fontelli

Lembro que quando assisti Elizabethtown pela primeira vez, fiquei bastante tempo pensando que talvez, aquele tivesse sido o melhor filme que eu tinha visto nos últimos tempos (um exagero é claro, mas, com certeza, ele está entre os melhores).

Não esteticamente (apesar da lindíssima fotografia), mas tem sempre um filme que no drama, te pega. Talvez pela proximidade com a realidade...


Cameron Crowe acertou no roteiro!

Não contei quantas vezes já vi o filme, mas em todas elas, tive as mesmas impressões.


Num universo perfeito, o filme une os dramas do trabalho, da família e dos relacionamentos (coisa não tão comum de se ver na telona, onde geralmente as histórias são contadas bem unilateralmente).

Tudo acontece em Elizabethtown tem um clima bacana de rock and roll e romance. Dá saudades lembrar do quanto é gostoso ficar horas ao telefone, pagar micos e faz a gente perceber que mesmo que cheguemos um dia no ponto de ebulição dos nossos problemas, sempre tem algo que pode ser muito pior... ou melhor!


Kirsten Dunst dá cor à personagem Claire Calburn, que ajuda Drew Baylor (Orlando Bloom) a descobrir que o amor pode ter diferentes planos de vôo e que mesmo que façamos de tudo para nos distanciar dele, ele pode ser o nosso próximo ponto de embarque.

A trilha sonora, que inclui
Lynyrd Skynyrd (uma das partes mais bacanas do filme, por sinal), Elton John e Ryan Adams, combina perfeitamente com o ambiente encantador que Crowe cria e muito bem (uma característica deste diretor, por sinal, ambientes discretos e intimistas).


Sem ser piegas, é o filme “brega” mais bonito da minha prateleira de filmes. É um filme que vicia, por contar histórias de vidas que em algum momento ali, vão parecer com as nossas. É um romance moderninho (que cabe em todos os sonhos), e acho que mesmo que eu assista mil vezes esse filme, vou ter sempre a mesma sensação estranha e absurda de encantamento.


Se você pretende fazer uma viagem... vale a dica!


Ficha técnica:

Título original:
Elizabethtown

Duração: 123 minutos
Direção: Cameron Crowe
Elenco:
Orlando Bloom, kirsten Dunst, Susan Sarandon, Alec Baldwin

Ano de lançamento:
2005


- Veja trailer.


Recomendo!

sábado, 21 de março de 2009

O Sabor da Cereja

Por Otávio Portugal

Até um tempo atrás achava os filmes Iranianos um verdadeiro pé-no-saco. Foram dias e dias de tormento para conseguir assistir um longa-metragem por inteiro. Um belo dia sento no sofá, no mesmo em que vi “Blue” (quem quiser leia a postagem da sexta anterior), me concentro e vejo com calma o filme “O Sabor da Cereja”, de Abbas Kiarostami. A história fala de um homem, chamado Baddi (Homayon Ershadi), que em uma Ranger Rover percorre todo o Teerão a procura de alguém para realizar um desejo seu, o ajudar a suicidar-se. Muito trágico, né? Mas enfim continuemos. Os felizardos que se deparam com essa situação são um soldado, um seminarista e por último um laboratorista. No diálogo com este último personagem é contada uma das piadas mais criativas do Irã (julgo eu):

Um turco chega no médico e reclama:

- Doutor eu toco em meu braço e ele dói, eu toco em minha cabeça e ela dói, eu toco em minha perna e ela dói, eu toco em minha barriga e ela dói, você poderia me examinar?

O médico:

-Hum, deixe-me ver!

Após a avaliação foi constatado que o turco estava com o dedo quebrado

O filme é excelente, os diálogos muito bem estruturados, uma lição de morte para quem almeja suicidar-se, não é à-toa que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no ano 1997.

Ficha técnica:

Título: O Sabor da Cereja
Duração: 95 min.
Ano de lançamento: 1997
Direção: Abbas Kiarostami
Elenco: Homayon Ershadi, Abdolrahman Bagheri,

Nota: 9,0

quinta-feira, 19 de março de 2009

Mostra 2008 em Foco

Por Laís Sampaio

Do dia 20 ao dia 26 de março, a UCI Ribeiro do Shopping Recife exibe a Mostra 2008 em Foco. Sete películas que se destacaram dentre as melhores do ano passado, foram escolhidas por críticos de cinema daqui de Pernambuco e serão exibidas uma por dia, em sessão às 19hrs - exceto sábado e domingo, às 11hrs. Após a sessão, haverá um debate com o jornalista que escolheu o longa do dia, com a participação de convidados e do público presente.

Os debatedores serão: Fernando Vasconcelos (Kinemail), Julio Cavani (Diario de Pernambuco), Luiz Joaquim e Thiago Soares (Folha de Pernambuco), Rodrigo Carreiro (Cine Repórter), Bernardo Queiroz (Programa de Cinema/Rede Estação), Silvana Marpoara (Rádio JC/CBN e Programa de Cinema/Rede Estação) e Rafael Nogueira (Portal Cineflash).

Os ingressos estarão à venda na bilheteria do cinema e com preços distintos: sexta-feira, R$ 16; sábado e domingo R$ 11; segunda-feira, R$ 6; terça e quinta-feira, R$ 13; e quarta-feira, R$ 9, com meia-entrada todos os dias.


Confira a programação:

Sexta-feira (20) - 19h
Na noite de abertura do evento, Thiago Soares e Silvana Marpoara debatem Vicky Cristina Barcelona (Vicky Cristina Barcelona, EUA/ Espanha, 96 min), com direção de Woddy Allen. Fazem parte do elenco Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Penélope Cruz. O longa gira em torno das duas amigas do título que, durante as férias, decidem passar três meses em Barcelona: Vicky é uma acadêmica cujo mestrado aborda a cultura catalã e que está noiva de um executivo de Nova York, ao passo que Cristina é uma jovem instável que ainda não descobriu sua verdadeira vocação ou mesmo o que busca no amor. Hospedadas na casa de uma parenta de Vicky, elas conhecem o pintor Juan Antonio (Bardem), cujo casamento com a também pintora Maria Elena (Cruz) chegou ao fim.



Sábado (21) - 11h
Será exibido Wall-e (Wall-e, EUA, 105 min), de Andrew Stanton, com comentários de Rodrigo Carreiro. Nono longa-metragem da Pixar, Wall-e é protagonizado por um robô que foi deixado no poluído planeta Terra, cerca de 700 anos no futuro, quando a Terra está infestada por poluentes. Por isso, os humanos vivem numa nave que percorre a atmosfera do planeta, a Axiom. O robozinho, que vive na Terra coletando lixo, se apaixona por uma robô de traço feminino enviado pela Axiom para sondar as condições do planeta.



Domingo (22) - 11h
É a vez de rever na telona O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 142 min), de Christopher Nolan, o sétimo filme da grife Batman. Após dois anos desde o surgimento do Batman (Christian Bale), os criminosos de Gotham City têm muito que temer. Com a ajuda do tenente James Gordon (Gary Oldman) e do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart), Batman luta contra o crime organizado. Acuados com o combate, os chefes do crime aceitam a proposta feita pelo Coringa (Heath Ledger) e o contratam para combater o Homem-Morcego. O debate ficará por conta de Bernardo Queiroz e Rafael Nogueira.



Segunda-feira (23) - 19h
No quarto dia de exibição Júlio Cavani discute Sangue Negro (There Will Be Blood, EUA , 158 min) , do diretor Paul Thomas Anderson. Na virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um mineiro de minas de prata derrotado, que divide seu tempo com a tarefa de ser pai solteiro. Um dia ele descobre a existência de uma pequena cidade no oeste onde um mar de petróleo está transbordando do solo. Daniel decide partir para o local com seu filho, H.W. (Dillon Freasier). O nome da cidade é Little Boston, sendo que a única diversão do local é a igreja do carismático pastor Eli Sunday (Paul Dano). Daniel e H.W. se arriscam e logo encontram um poço de petróleo, que lhes traz riqueza mas também uma série de conflitos.



Terça- feira (24) - 19h
Luiz Joaquim e Rodrigo Carreiro falam sobre o quinto filme da mostra. O Nevoeiro (The Mist, EUA, 126 min), foi Dirigido por Frank Darabont. Depois que uma violenta tempestade devasta a cidade de Maine, David Drayton - um artista local - e seu filho de 8 anos correm para o mercado, antes que os suprimentos se esgotem. Porém, um estranho nevoeiro toma conta da cidade, deixando David e um grupo de pessoas presas no mercado - entre elas um cético forasteiro e uma fanática religiosa. David logo descobre que o nevoeiro esconde algo sobrenatural e que sair do mercado pode ser fatal. Mas conforme o grupo tenta desvendar o mistério, o caos se instala e fica evidente que as pessoas dentro do mercado podem tornar-se tão ameaçadoras quanto as criaturas do lado de fora. Baseado na obra de Stephen King.



Quarta-feira (25) - 19h
O debate dessa noite tem como tema Trovão Tropical (Tropic Thunder, EUA/Alemanha, 107 min), de Ben Stiller, guiado por Rodrigo Carreiro e Bernardo Queiroz. Cinco atores num set de filmagem enfrentam situações que eles jamais experimentaram antes. Enquanto rodam um filme sobre guerra de grande orçamento, são obrigados a se tornar de fato os soldados que interpretam na história. Black é Jeff "Fats" Portnoy, um comediante acima do peso forçado e abandonar as drogas no meio da floresta; Downey Jr. é Kirk Lazarus, o maior ator de sua geração e quatro vezes indicado para o Oscar; Baruchel é Kevin Sandusky, um ator desconhecido; e Stiller é Speedman, que pretende se tornar uma estrela.



Quinta-feira (26) - 19h
Na noite de encerramento da mostra, Senhores do Crime (Eastern Promises, EUA / Canadá / Inglaterra, 100 min) será debatido por Fernando Vasconcelos e Bernardo Queiroz. Anna (Naomi Watts) é uma parteira que trabalha em um hospital de Londres. Um dia ela testemunha a morte de uma jovem, durante um parto realizado em pleno Natal. Ela decide dar a notícia de seu falecimento pessoalmente, o que a faz pesquisar sobre sua identidade e família. A busca acaba colocando-a em contato com o lucrativo tráfico do sexo, comandado por uma organização criminosa da Rússia. Logo Anna conhece Nikolai (Viggo Mortensen), um homem violento e misterioso que é mais do que aparenta.



*Foto: Vicky Cristina Barcelona - Woddy Allen

terça-feira, 17 de março de 2009

Os 12 trabalhos

Por Aline Fontelli

Héracles é um jovem da periferia de São Paulo que acaba de sair da Febem e tenta conseguir uma vaga de motoboy na empresa onde Jonas, seu primo, trabalha. Ele tem que cumprir doze entregas, que vão servir de testes para ele conseguir a vaga de emprego.

É óbvio que se ignora o entregador, o gari, o carteiro e tantas outras pessoas em seus "servicinhos mínimos", porque, de fato, as pessoas mal tem tempo para si mesmas. O ritmo estressante das metrópoles destrói o contato humano, e Ricardo Elias resgata essa percepção no longa.

Ganhador de 5 prêmios no CINE-PE - Festival do Audiovisual (Recife), entre eles o de melhor roteiro, a intenção do filme é bastante interessante.

Sendo uma adaptação moderna (bem moderna, pois não conta com Deuses ou forças dantescas) da história do herói grego Hércules (inclusive o nome do personagem principal, Héracles, remete ao nome do herói), a intenção de Elias consegue ser bem captada. Mostrar o cotidiano de uma classe de trabalhadores que sofre diversos preconceitos, mas que sabem usar do respeito entre si. Mesmo dentro de um universo competitivo, esses homens de roupa preta que arrancam com todo o vapor com suas motos, existe um ponto que eles sabem ser crucial: a união.

Não é genial, mas, Os 12 trabalhos, traz uma ótica de histórias que passam bastante apressadas ao nosso lado, todos os dias. Quase nunca se pensa em quantas vidas são vistas apenas como "coisas" mecânicas que tem que cumprir ordens e horários. E, na maioria, só se sabe mesmo é reclamar dos cinco ou dez minutos de atraso desses "caras de moto", e até mesmo quando pontuais, quase nunca recebem um simples: obrigado!

Vale a pena conferir este filme, que é o segundo deste diretor. O anterior foi De Passagem, lançado em 2003.


Ficha técnica:

Direção: Ricardo Elias
Duração: 90 minutos
Elenco: Flávio Bauraqui, Sidney Santiago, Vera Mancini, Vanessa Giácomo, Cynthia Falabella, lucinha Lins, Eduardo Mancini
Ano: 2007

- Veja trailer.

Nota: 8,0

domingo, 15 de março de 2009

Anti-Herói Americano

Por Alexandre Cunha


A metalinguagem é um
artifício constantemente utilizado nas narrativas cinematográficas. Desde clássicos fellinianos - por exemplo - a produções mais recentes (Adaptação, de Spike Jonze, é, talvez, meu favorito). O "filme dentro do filme" é, se bem manejado, um eficaz instrumento na elaboração e na prática da sétima arte. Por achar prazeroso ter a oportunidade de conhecer e entender um pouco mais sobre o fazer cinema, obras metalinguistícas sempre me atraem.

Adaptado a partir da série de quadrinhos American Splendor, Anti-Herói Americano retrata a vida e obra de Harvey Pekar (Paul Giamatti), autor das publicações acima citadas. Harvey trabalhava como arquivista em um hospital. Quando conheceu Robert Crumb (James Urbaniak), amante e escritor de graphic novels, percebeu a necessidade de criar suas próprias histórias. Mas, diferenciando-se dos demais, Harvey pôs nos gibis histórias de seu dia a dia em sociedade. Histórias sobre suas angústias, alegrias, frustrações. Diálogos e personagens reais que o autor reproduziu em diversos quadrinhos (ilustrados por outros artistas, já que Harvey, como o mesmo afirma, não consegue desenhar uma linha reta), cujo sucesso resultou em idas ao Late Night, de David Letterman. Apesar da maior visibilidade, Harvey permaneceu no underground literário, o que desencadeou inúmeros acontecimentos que são magistralmente "lidos" nesse filme.

Lidos por que todo o filme é contado "em forma" de gibi. Cenas com títulos, as figuras interagindo com os atores; todo o universo ilustrado nas obras de Harvey é trazido fielmente às telas. A narração em off, feita pelo Harvey real, é totalmente adequada (se ele conta suas histórias nos gibis, por que não contar suas histórias em seu filme?) e pode ser vista, também, como uma crítica aos que desprezam a presença da voz "guia". Ver, no filme, as pessoas que originaram aqueles personagens é algo interessantíssimo. A cena em que os reais Toby e Harvey conversam, enquanto os atores que os interpretam ficam em segundo plano, está impecável. Shari Springer Berman e Robert Pulcini dividem a direção - e o roteiro - com plena segurança e criatividade. É clara, mas sutil, a opinião dos diretores na fala de uma antiga colega de faculdade de Harvey, quando a mesma, comentando sobre um livro, diz que a obra "não tem aquele final feliz de Hollywood. Mas é verdadeiro, o que é raro hoje em dia".

As atuações extraídas do elenco são igualmente aplaudíveis. Paul Giamatti está sensacional como Harvey. As cenas em que o personagem aparece com a voz comprometida demonstram a capacidade cômica da ator - que também brilha nos momentos dramáticos. Hope Davis retrata otimamente a esposa de Harvey, Joyce Brabner, e Judah Friedlander faz o público rir interpretando o nerd assumido Toby Radloff, amigo do autor. A disponibilidade dos verdadeiros personagens também é digna de mérito; nem todos exporiam suas vidas como eles fizeram.

Um filme que exala metalinguagem, nos fazendo refletir sobre o próprio cinema e, fundamentalmente, sobre o viver, sobre as pessoas, sobre o filme dentro da vida de cada um e suas direções, roteiros e montagens. Uso, aqui, as palavras de Charlie Kauffman em Sinedóque, Nova York: "Há milhões de pessoas no mundo. E nenhuma delas são figurantes. Todas são protagonistas de suas próprias histórias". Apesar de a mídia enaltecer, por razões óbvias, o american way of life, minha (nossa) vida, simples e sem flashes, é, sim, tão importante quanto a do mendigo da esquina e a da modelo do ano. Posso não ter a atenção social recebida pela modelo, mas é a partir da minha vida "despercebida" que evoluirei como humano. E é nessa despercepção que amamos, choramos e rodamos, diariamente, nossa autobiografia.


Título Original: American Splendor
Direção e Roteiro: Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Elenco: Paul Giamatti, Hope Davis, Judah Friedlander, James Urbaniak, Earl Billigns
Ano: 2003
Duração: 101 minutos


sexta-feira, 13 de março de 2009

"Coloco um delphinium azul, sobre sua tumba" Derek Jarman

Por Otávio Portugal

Quando coloquei o filme no aparelho de DVD, achava que tinha algo errado porque a tela sempre estava azul. Rebobinava, avançava e nada. Mas logo me surgiu uma idéia brilhante, ler a sinopse do filme. Foi aí que percebi se tratar de um filme experimental, em tela monocromática e narração em quatro vozes. Um aidético em estado terminal deitado na cama de um hospital, conta tudo o que acontece a sua volta. Sons de gotas de soro, de injeções, de carrinhos com rodas, de alucinações e devaneios narram o plano de fundo. O diretor, do telão azul mais demorado do mundo, Derek Jarman produziu o longa-metragem quando estava perto de morrer, por causa da aids. Blue foi a sua última obra e considerada a mais impactante.

  • Filme: Blue
  • Direção e Roteiro: Derek Jarman
  • Vozes: John Quentin, Nigel Terry, Tilda Swinton e Derek Jarma
  • Tempo: 74 min

domingo, 1 de março de 2009

A Família Savage

Por Aline Fontelli


"The Savages" (título original), fala sobre reaproximações que, muitas vezes, podem ser mais dolorosas do que imaginamos, sobre desapegos a coisas que sabemos não ter futuro, sobre escolhas racionais que prevalecem acima dos sentimentos por questões de convenção e mostra isso dentro de uma família desestruturada, desde o seu início.
Casos comuns, de pessoas comuns, com vidas comuns, mas, que de tão comuns são aplicadas justamente ao cotidiano de pessoas como eu e você, que só precisamos achar a saída em um ponto de esperança. E como todos temos que pagar um preço, parece que ele sempre vem da forma mais dolorosa...
Pois será que amanhã, aos trinta e tantos anos, eu vou poder abraçar o meu pai sem que ele me confunda com uma enfermeira?
Linney e Hoffman, em atuações emocionantes, nos mostram o tom real de uma família egocêntrica moderna e que nem todo o amor está perdido...



Ficha técnica:


Título original: The Savages
Elenco: Laura Linney, Philip Seymour Hoffman e Philip Bosco
Direção: Tamara Jenkis
Duração: 113 minutos


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Nota: 9,0

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Lars and the real girl

Por Alexandre Cunha


A capacidade artística de Ryan Gosling é inegável (a Academia lembrou-se disso uma vez). Mas o que mais me deixa impressionado é a inteligência - e audácia - do ator na escolha de seus projetos. Seria até comum se Gosling, depois de mundialmente famoso, vestisse a camisa hollywoodiana e penetrasse no universo dos blockbusters. Porém, o ator de 27 anos parece não se importar com as fantasias reais oferecidas por Hollywood. E rejeitar tais "oportunidades" conseguindo ainda assim manter-se entre os melhores atores de sua geração é algo extremamente elogiável.

O filme gira em torno de Lars Lindstrom, um tímido rapaz que parece, muitas vezes, incapaz de até mesmo falar, tamanha a insegurança e isolamento do mesmo. Porém um dia ele diz ao irmão (Paul Schneider) e à cunhada (Emily Mortimer) que levará sua namorada para jantar com a família, causando divergentes sentimentos em seus parentes (aquela alegria mesclada à curiosidade e à tensão de ocasiões como a descrita acima). E, por mais absurdo que pareça, a namorada de Lars é... uma boneca inflável. Nesse momento muitas pessoas julgam a produção como algo sem-noção, rídicula, entre outros adjetivos desfavoráveis. No entanto, a façanha do projeto é basicamente essa: conseguir fazer de um universo teoricamente absurdo o mais real e comovente possível. Eu, particularmente, nunca imaginei que, um dia, me emocionaria em ver um homem chorando por uma boneca doente. E a delicadeza em que o filme retrata essa "irracionalidade" é tocante.
O belo roteiro - indicado ao oscar - de Nancy Oliver e a sutil direção de Craig Gillespie se engrandecem com a maravilhosa atuação de Ryan Gosling. O ator cria um Lars complexo, introspectivo, sem em momento alguém apelar para o melodrama. É daqueles personagens que você torce para que existam iguais ou semelhantes no dia-a-dia real. Contando ainda com um grupo de atores coadjuvantes muito competente, Lars and the Real Girl (2007) é um belíssimo filme ainda inédito no Brasil. O filme tinha previsão de estrear no país ano passado, mas isso não ocorreu. Portanto, recorram aos meios alternativos e apreciem cinema de qualidade.


Ficha técnica:

Título original: Lars and the real girl
Direção: Craig Gillespie
Duração: 106 minutos
Elenco:
Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Kelli Garner, Patricia Clarkson


- Veja trailer